Estamos nos anos de 2050. Jota Mombaça é a presidenta e seu vice é Paul B. Preciado. Instaura-se o manifesto monstras/os contrasexuais, em um lugar no qual ninguém é forte o suficiente para reproduzir a norma. Todos, todas e todes têm materialidades em ser aquilo que quiserem ser e andam livres. Nas aulas, a matéria que impera é o cu que sabe, dando voz a cus marginalizados/as. Essas vozes ecoam na cidade vizinha, que é hiperconservadora e que tenta, a qualquer custo, derrubar esse lugar de possibilidades outras de existir.

Corpas e corpos esvaziaram-se de si para se preencherem de individualidades construídas em coletivo. A arma da cidade vizinha são as fake news; a maior arma da cidade Contrasensual é o deboche, pois é por meio do deboche que artes, cultura, educação e política se constroem. Os conservadores não conseguem entender seus discursos de corpas e corpos sem órgãos; não entendem que até seus cus falam.

Houve um momento em que a cidade Conservação tentou realizar manifestações na cidade onde Jota Mombaça e Preciado reinam. Tentaram fazer com que a cidade fosse fechada, mas Jota Mombaça acionou a gangue de monstras, dragas e travestis para que eles não pudessem causar nenhum mal à cidade nem às pessoas que ali habitavam. As dragas-travecais, uma gangue que detém o poder do conhecimento, ao verem a aproximação cisbrancaheteronormativacristã, viraram suas corpas, arreganharam seus cus, abriram suas bocas e soltaram seus poderes de conhecimento.

Os conservadores, diante de tamanha força, correram desesperadamente com seus discursos normais e suas vidas normais, voltando à cidade que cheirava a esgoto. As ratas que vivem nos bueiros perceberam a volta dos conservadores e roeram todas as fake news, suas roupas azuis e rosas, suas tecnologias de gênero que imperavam naquela cidade suja de moral e bons costumes. A cidade teve um fim? Dizem as línguas que a cidade está submersa sob o poder do Deus cisbranco.

Jota Mombaça e Preciado, com suas manifestações monstras e contrasexuais, criavam cada vez mais políticas, culturas, artes e educações, pensando formas outras de existências, narrativas e corpas que nasciam de cus e bucetas de homens. Relações outras entre os seres humanos surgiam, sem cair na normalidade heterossocial dos afetos.

A cidade Contrasensual era tida como exemplo de uma cidade organizada politicamente em todas as vias. Apenas os bois conservadores planejam, até hoje, destruir uma cidade onde há poder contrassexual e monstras poderosas.

Foto de Lucas Gibson para o livro MONTAÇÃO (Casa Philos, 2020-2025)

Roriê Gimenes é travesti, artista da cena e graduanda em Artes Cênicas pela UEM. Com 13 anos de trajetória nas artes integradas, atua entre dramaturgia, performance, produção cultural, audiovisual e dança. Investiga a fabulação e a travestilidade como práticas críticas e poéticas, criando estéticas insurgentes a partir de vivências periféricas e dissidentes. Integra os coletivos Rebeldia Cênica e Xica Manicongo, articulando arte, cultura, educação e luta transvestigênere.


A fotografia que acompanha o texto é do fotógrafo Lucas Gibson, um dos autores do premiado livro MONTAÇÃO, publicado pela Casa Philos.

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